TRENS NA ÍNDIA

Ver passageiros pularem para dentro de um trem em movimento ou grupos de pessoas agarradas ao teto de um vagão não é algo incomum em um país como a Índia. Homens e mulheres se amontoam às portas do trem de subúrbio que lhes garante a condução ao trabalho para “ganhar o pão de cada dia", pois é o principal meio de transporte desse país com mais de um bilhão de habitantes. Além do transporte diário da população em geral, a cultura tradicional da Índia requer que milhões de pessoas que moram longe dos parentes façam freqüentes viagens a fim de comparecer a eventos familiares, como nascimentos, funerais, festividades, casamentos ou por motivo de doença. Em média, mais de 8.350 trens percorrem cerca de 80.000 quilômetros transportando mais de 12,5 milhões de passageiros diariamente. Os trens de carga rebocam bem mais de 1,3 milhão de toneladas em mercadorias. No total, esses trens fazem viagens equivalentes a três vezes e meia a distância da Terra à Lua todos os dias! Se levar em conta as 6.867 estações, as 7.500 locomotivas, os mais de 280.000 vagões de passageiros e de carga, e o total de 107.969 quilômetros de trilhos incluindo os desvios ou linhas secundárias, é possível entender por que as ferrovias da Índia empregam cerca de 1,6 milhão de pessoas — o maior quadro de funcionários de todas as empresas do mundo.

Chegar à estação de trem, conseguir identificar a plataforma do seu trem sem informação nenhuma na estação, passar por pessoas dormindo no chão sujo no calor de 36 graus as 4 da manhã, achar qual dos 20 vagões é o seu, achar a sua cabine torcendo para que não tenha ninguém sentado na sua “cama”. Ah, e antes disso tudo, torcer para que o seu trem não esteja atrasado (é comum atrasos de 2 a 3 horas). Isso é viajar de trem pela Índia. Assim, em 2018, minha primeira viagem de trem na Índia foi de Varanasi a Rishikesh. Cruzei 900 km de uma Índia desconhecida aos meus olhos atentos, com a câmera na mão e o coração na boca, aguardando as cenas se formarem para as minhas lentes. Foram 22h de viagem dentro um vagão pulsante, participando de histórias que iam sendo contadas por gestos, comidas, roupas, sorrisos, choros, olhares. Histórias que iam sendo contadas pelos ponteiros do relógio, pelas 52 paradas, pelas conversas que eu não entendia, pelos cheiros que eu identificava. Sozinha, por 22h meu coração bateu num misto de deslumbramento, medo, ansiedade, tranquilidade. Mas todas as pessoas que encontrei me ofereciam alimentos ou tentava iniciar um diálogo em hindi, idioma oficial na Índia. Homens, crianças. Mulheres enfeitadas e com olhares tão adocicados quanto o patchouli e tão fortes quanto o curry. Eu não entendia muita coisa, mas recebia sorrisos e um acolhimento que de alguma forma me tranquilizavam. Dentro deste trem que me levou até Rishkesh, entrei nua de qualquer ego, mas com coração quente e olhos emocionados. E lá fui eu atrás de respostas para as quais eu não tinha perguntas concretas, apenas sentidas.

Sagitarianos e suas manias de sair da zona de conforto e se aventurar. E eu não sei até quando minha alma vai achar que tem dezoito anos. Eu espero que para sempre.  Namastê!

 

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Copyright © 2018 Roberta Simão

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